sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Atenção!!!! Documentário e Artigo Científico saindo no dia 16/11!!!

Últimas etapas deste projeto que me ensinou tanto e que me deu vias para partilhar esta pesquisa.

Dia 16/11 teremos a publicação de um artigo científico aqui no blog Visando Impro! Ás 10h da manhã do Brasil já estará disponível.


 E sim!!!! O Lançamento do Documentário “Era Preciso Ouvir Outras Vozes” com entrevistas coletadas nas viagens e encontros de Impro vai sair. Um smart phone na mão, pessoas interessantes e amizades que tornaram a parte técnica digna para esta pessoa aqui que nunca fez nada parecido. Muita gratidão e muita vontade de partilhar.

No momento do lançamento no YouTube (o link de acesso será publicado aqui às 15h do Brasil no dia 16/11 e também na nossa página do Facebook) também vamos fazer uma exibição no Espaço Imagine Produções Criativas (Amadora - Portugal), às 15h do Brasil (19h em Portugal).

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domingo, 15 de setembro de 2019

Palestras de Impro e Impro Long Form no YouTube

Pois já se passou uma ano desde que fiz as palestras com transmissão ao vivo sobre Impro e uma específica sobre Impro Long Form após os aprendizados nos cursos nos Estados Unidos e ida ao Festival Internacional na Grécia.

Desde então estes conteúdos estiveram disponíveis na página do facebook do Projeto VISANDO IMPRO, mas agora trazemos para vocês as palestras no YouTube legendadas em português (para acessibilidade e notas de referências).

Espero que desfrutem e que este material contribuía para entendimentos, criações e divulgação da Impro.

Palestra sobre Impro em Geral: https://youtu.be/-GkgcKXYw-M

Palestra sobre Impro Long Form: https://youtu.be/ARKgTf-Raow

domingo, 21 de julho de 2019

Novidade em Português para se ler em Impro!

Olá, pessoal!

Sim, faz tempo que não tem postagem no blog. E por bons motivos: o documentário e a pesquisa em Impro tem me ocupado muito. Assim que o documentário (ou os 5 espisódios) estiver pronto, eu volto a postar com maior regularidade. Mas nossa página do facebook está sempre atualizada com novidades do documentário e projeto Visando Impro: https://www.facebook.com/visandoimpro/ 

Mas esta passada rápida para matar a saudade vem com novidade ESPECIALÍSSIMA

COmo já conversamos anteriormente, a literatura específica de Impro, Teatro de Improviso, é escassa em português. São poucas (em crescimento, mas ainda poucas) monografias, dissertações, e teses acadêmicas e apenas 4 obras publicadas se contar "Improvisação Teatral" de Viola Spolin que menciona o Teatro de Improviso, mas trata mais da pedagogia teatral usando improviso.  Temos ainda duas obras originais em português do Brasil: "Improvisação como Espetáculo" de Mariana Muniz e "Os Pirncípios da Improvisação - 40 jogos para aprender e improvisar" de Cláudio Amado. O livro "Sim, mas" do argentino Omar Galván foi recentemente traduzido para o português de Portugal. E apesar da até extensa produção sobre improvisação como ferramenta e parte da história do teatro ("Natureza e sentido da Improvisação teatral" de Sandra Chacra ou os livros de Augusto Boal, por exemplo), 4 obras era tudo que tínhamos... até agora!

Em junho de 2019 a revista Status, única revista dedicada à Impro, originalmente produzida em espanhol, mas também com traduções em inglês, alemão e francês, começou a ter suas edições na versão em português. Sim, esta é uma das coisas que tem me tomado tempo. Apesar de não estar a produzir conteúdo para o blog, tenho contribuído para nossa bibliogtrafia na tradução oficial da revista Status. A revista é digital e mensal e cada edição custra 1 euro, ou, a assinatura mensal 10 euros. É uma revista que vive de doações e assinaturas. Por isso, piratear algo tão ok de pagar é só sacanagem, né? Todo mês a revista traz uma entrevista com improvisadoras e improvidadores do mundo à fora, uma matéria sobre técnicas realcionadas ou ferramentas para Impro e outras questões. Para assinar: https://payhip.com/b/ZAFy 
Fica a dica, a edição de julho tem entrevista com Keith Johnstone.

Mas a gente não vai parar por aí. O carioca Zeca Carvalho, um dos organizadores do Festival Unviersitário de Impro no Rio de Janeiro, veio à Portugal fazer seu Pós-Doc na Universidade de Lisboa. E transformou sua tese em um livro. Sim, agora temos mais um livro em Português. A tiragem é independente, são pouquíssimas edições, por isso o Zeca está disponibilizando gratuitamente, sim, eu disse gratuitamente, o livro em PDF para quem quiser ler seu estudo sobre corporeidade entre Brasil e Portugal na Impro: "O Corpo no Teatro de Improviso".




E aqui está o link para você fazer o dowload do livro!

Vamos ler e discutir e produzir e usar e criar e... e... e... Adoro!!!!




segunda-feira, 11 de março de 2019

Dos perigos de se tornar um/a Improvisador/a

Devo dizer que o título desta postagem é perfeito para o que eu vou dizer, mas provavelmente não é o que você está a pensar que eu vou dizer. A imagem da água também. Bebe uma água, lê com carinho e abertura. Beber água é tão importante quanto se perceber. Aliás, beber água é se perceber: o que você precisa e como passa seu dia.

Fonte: https://mamaonoticias.blogspot.com/2016/09/e-incrivel-o-que-um-copo-dagua-mais.html

O que quero dizer que eu realmente vou falar dos "perigos" que eu vejo em se assumir e se dedicar a ser um/a improvisador/a, mas não devem ser exatamente aqueles perigos que vem à mente de imediato.

Primeiro me pergunto o que se é ser tornar um/a improvisador/a? e me perfunto com o mesmo teor do que é se tornar artista? No meu caso, o campo é o Teatro, este é o contexto, mas sinta-se livre para adaptar para a arte em geral.

Para esta questão vou me apropriar de uma conceituação de Augusto Boal. Ele foi um diretor, professor e encenador brasileiro que foi nomeado ao Prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho com Teatro, o Teatro do Oprimido (que, entre outras formas de Teatro desenvolvidas por Boal, tem a improvisação bem ali no treinamento e estrutura de encenação... E por isso ele aparece citado em várias bibliografias de Impro, fica a dica!) Boal usa o conceito de não-ator/atriz para as pessoas que em determinado momento desempenham a função de ator/atriz, mas que não se dedicam à profissão. As/os profissionais sao, por ele, chamados de atrizes/atores e dedicam tempo, treinamento, energia, projetos para seu desenvolvimento na área e o desenvolvimento da própria área. Gosto desde ponto de vista porque não desvaloriza o trabalho de ninguém, mas mantém um olhar quanto à intensidade de empenho. Só dispensaria a negação e palavra "não" para o conceito, mas transmite a idéia. 

Tenho para mim que quando você escolhe se dedicar à profissão de artista, a sua vida vai girar em torno disso, como acontece com um/a médica/o, advogada/o, etc. Porém, não tem botão de desligar. Você vai subir na roda gigante e olhar para os carros e analisar o padrão de cores, a direção de arte, as linhas simétricas ou assimétricas da vida. Nosso objeto de estudo é a vida cotidiana, então isso nos grita a todo momento. (Eu também acredito que em qualquer profissão não se desliga a maneira de pensar e ver o mundo a partir deste filtro, mas o grau de interferência é menos visível ou perceptível).

Ao escolher ser artista, se isso for tão somente uma escolha, tudo vai lhe ser político (não necessariamente politizado), roubando mais um pouco dos dizeres de Boal: Todo teatro é político. Tem algo a dizer, um ponto de vista, uma ideia, ou uma pergunta.

Bebe um gole de água.

Dito isso, olho para a Impro e vejo a interferência ainda mais ativa na minha vida e na de outras pessoas que se debruçam sobre ela (vida ou Impro). Gente, pelo amor da Deusa, sem romantização de como artistas são especiais, etc. Porque, até pelo próprio olhar do Boal, todas/os somos artistas (não-atores/atrizes). Sim, Impro! 

Quando se começa a dedicar a arte da Impro você entende a aceitação como princípio longe de ser um limite ouuma regra do que se pode ou não fazer. Nas primeiras aulas, você aprende a dizer "sim" para basicamente toda ideia colocada em cena. É uma metodologia de aprendizagem MUITO eficaz, pois quebra comportamentos bloqueadores que estão enraizados em nós socialmente. Mas com o tempo, é possível perceber e vivenciar que a aceitação inclui o "não" também, por isso é um princípio. Nas últiams aulas com Rich Baker no Second City de Los Angeles (2018) ele fazia um exercício no final da aula do último dia em que tínhamos que negar tudo, fazer o oposto de tudo que aprendemos. E as cenas eram divinas, divertidíssimas, coerentes... E por que? Porque mesmo fazendo tudo "errado", aceitávamos a proposta de fazer tudo "errado".  E para fazer "errado" tínhamos que ouvir o que acontecia em cena, mesmo para não ouvir o que acontecia em cena. Ok, vou dar um exemplo: "Temos que ouvir nossa/o colega em cena". Para quebrar essa premissa, ou seja, não ouvir a/o colega em cena, eu tinha que ouvi-la/o para me provocar a não ouvir. Porque o ouvir no caso é no sentido de escutar falas e sons, mas também ver o que se faz, trocar olhares, o que o gesto e o toque propõe, estar presente.

Aí então também percebe que existe uma pessoa muito importante para ouvir, não mais não menos importante, e extremamente importante (repito de propósito porque é importante): Você. Ouvir a sua voz, suas propostas e vontandes tanto quanto de quem está à volta. Em adendo para acentuar que eu realmente não vejo uma diferença entre ser atriz/ator e improvisador/a (além de se especificar numa linguagem teatral, mas que ainda é teatro), trago este trecinho de A Porta Aberta de Peter Brook: "Na Índia, os grandes contadores de histórias que narram o Mahabharata [...] Têm um ouvido voltado para o seu interior e o outro para fora. É o que deveria fazer todo ator de verdade: estar em dois mundos ao mesmo tempo." (2005, p.27).

Essa preciosidade de se ouvir me fez muito sentido no me ouvir na condição mulher (Simone Beauvouir). Ouvir meu corpo em suas necessiades e limitações que mudam de dia para dia, de hora para hora. Ouvir meus ideais, a minha política, as minhas tolerâncias e intolerâncias... Acredito que agora começa a ver os perigos dos quais vou falar.

Bebe um gole de água.

Aprendi como improvisadora/atriz e mulher que eu aceito discursos e comportamentos machistas, o que não quer dizer que os tolere. Como assim? Em cena (ou fora dela): quando eu escuto (no sentido da escuta plena, presença) alguma sugestão sexista, eu a recebo, não a ignoro. E é isso. Eu não a ignoro. Eu a olho de frente e não deixo passar despercebida, fingir que não vi porque é feio ou porque a encarar vai "constranger" quem queria ignorar (que falou/fez ou ouviu/viu). Não significa cair numa briga. Por favor, deixemos este esteriótipo de que a mulher que vai falar sobre o que a afeta e incomoda, que 98% (talvez mais) das vezes vai ser sobre questões machistas, que ela vai brigar, ficar louca ou "histérica". Esse olhar é extremamente velho e... adivinha? Machista. Lembrando que o machismo não existe só no homem, é de toda uma sociedade que o sustenta, como podemos ver pela "ministra" da Mulher e da Família no Brasil. Então, respire e me escute. Não tem nada em caixa alta (caps look) aqui, então não há gritos ou esbravejamentos. Abre uma cerveja, um vinho, serve um suco ou um chá. Estamos bem? Siga quando estiver pronta/o. Se escute também.

Aceitar a existência das coisas é justamente usa-las, e não se resignar a elas. Pelo menos é o que eu aprendi na improvisação ao se aceitar uma ideia, ela não é uma condenação que me prende, é uma ferramenta, um degrau, um tijolo de consrução. Eu a uso, estou presente, há escolha. Há escolha. Percebe o perigo duplo: 1) tudo que trazemos para a cena vai ser ouvido, não vai passar despercebido e vai ser usado. Então não dá para "pedir" para deixar batido, fingir que não ouviu/viu/sentiu. Vai contra o princípio. Aquela é a oferta. 2) Há escolha: como vamos usar isso. E esta escolha está no afeto, em como nos afetamos, nas nossas políticas, em como ouvimos nosso interior em relação direta ao exterior.

Talvez fosse possível (e é, porque é uma escolha também) tentar fingir que não aconteceu. Mas tem que ser uma escolha de todo mundo, até do publico, porque estava lá. Mas aí está o perigo em se tornar improvisador/a: você agora está treinada/o, e você "quer", escolhe, ouvir/ver/sentir. Ignorar e fingir que não viu, vai ser uma escolha contra essa natureza.

E é aí que eu não entendo comentários do tipo: "a Luana sempre vai fazer a coisa ser sobre machismo". Escuto isso e acho até graça na formação da frase, porque eu não fiz o machismo, ele tava bem ali, eu só não deixei passar. Ah, sim, essa é uma escolha minha. Outra aspecto que vejo nesta observação é que na verdade eu não "faço" nada sobre o machismo, e sim sobre o feminismo. Que não é o oposto (mais uma vez: feminismo não é o posto do machismo. Feminismo é um movimento pela igualdade de direitos e respeito. Machismo é uma conduta e pensamento social que dá desvaloriza a mulher em relação ao homem.). O feminismo não ignora o machismo, lhe encara de frente e luta para sua extinção. Então, vou adorar ouvir: "a Luana sempre enxerga a força do feminismo". Tá... ok, é bem romântico. Eu enxergo o machismo. E muitas vezes (e talvez não o suficiente) enxergo em mim também. A mudança é bruta. Por isso escolho não ignorar.

Quando uma pessoa posta uma "piada" ridicularizando as mulheres, eu falo que não gostei. Não brigo (necessariamente), mas não deixo mais passar, fingir que não vi, que essas pessoas são assim mesmo então nem adianta... Tenho tolerância com a pessoa e não com a coisa. Eu já me entendi neste lugar, pelo menos agora na minha vida. E vou re-agir, no sutil, no direto, no indireto, é da minha atual natureza responder ao que vejo/sinto/escuto.

Bebe um gole de água.

Mas de tudo isso, eu gostaria de pensar agora especificamente em relação às/aos demais improvisadoras/es. Quando "a Luana [ou qualquer outra pessoa, homem e mulher] faz alguma coisa sobre o machismo", você também não vê? Digo, talvez não tenha percebido no momento, mas quando é evidenciado pela pessoa, você não vê? Se não... bom, tem uma pessoa propondo algo, talvez pudesse se esforçar para ver/ouvir/sentir a proposta. Se sim... Qual é o incômodo? Realmente, qual é? É o "toda vez"? É um cansaço de falar no assunto? Se for isso, o que tenho a dizer é que é cansativo mesmo e que está em todos os comportamentos, então é sempre e toda vez mesmo. E talvez aquela pessoa não precisasse fazer isso "toda vez", se ela não fosse a única a fazer. Sabe? Cansa estar sozinha. Cansa repetir e não ecoar. Cansa ouvir: "mas são assim mesmo"... Cansa perceber que todo mundo percebeu o que foi dito/feito/sentido, porque na hora que isso acontece todos olham para você para ver a sua reação. Por que te olhariam? Porque ouviram, viram e sentiram. E o que escolhem fazer? Essa é a pergunta do perigo aqui: O que você escolhe fazer? Vai ignorar? Vai jogar a bola para aquela pessoa de sempre e dar um peso para o "toda vez"? Vai dizer ou fazer alguma coisa? Vai dividir o peso? 

E agora que você é um/a improvisador/a, como você pode ignorar isso? "Grandes poderes trazem gradnes responsabilidades" (Tio Ben - Homem Aranha). Mais uma vez, não é um intento à briga (às vezes é, as intensidades tem a ver com as situações, não é mesmo?). Eu mesma, intensa na minha fala como sou para tudo, nem brigo ou grito. Sim, eu reajo, e é grande, na intensidade do afeto. Salvemos as proporções das intensidades, os contextos, e até mesmo o cansaço da repetição para ambos os lados (e aqui não é entre mulheres e homens, mas sim em quem fala e escuta). Estamos todas/os cansadas/os e cheias/os de uma discussão que se finge discutir. Uma realidade que dura milênios, queremos que se resolva em cinco minutos. Vai ser todo dia, grão por grão, gota a gota. Toda vez, todo dia, toda ação. Dá medo e tudo parece a gota d'água. (Bebe água) Eu sei que medo é esse?  E em ti: o que te incomoda? Mesmo, olha para o medo e o incômodo sem uma resposta preparada. "Não esteja preparada/o" (Keith Johnstone). Você sabe que incomôdo é esse seu?

Parece que fui longe, mas eu estou mais perto que nunca. Numa lente de aumento.  uma evidência, dessas que a gente escuta/vê/sente e não deixa passar. É a mesma coisa que qualquer professora/a de Impro lhe diria sobre qualquer proposta de cena: algo está acontecendo diante de ti: o que vai fazer à respeito? Vai bloquear o que aconteceu? Ou vai aceitar e...? 

É que o aceitar implica em dar continuidade, em tomar um partido e ser política/o. A bola fica contigo, aceitar que aconteceu e construir algo dali, somar, acrescentar um tijolo a essa casa. 

No palco, na conversa do bar, no seu dia a dia: O que será o seu "e..."?


***

Algumas perguntinhas feministas em relação a Impro para se pensar (não tenho resposta, vou adorar conversar):

1) Quando sugerem uma profissão ou uma personagem, quantas vezes se escolhe interpreta-la como mulher? Exemplo: bombeiro, pedreiro, senador, jókei, etc. (provocação extra: percebem como a linguística nos leva a pensar no masculino?)
2) Quando homens interpretam mulheres e quando mulheres interpretam homens: 
- E a definição do gênero acontece no meio da cena: você muda a sua forma de falar e se movimentar? Como? Por que?
- Você se apóia num esteriótipo? Qual?
- Quantas vezes você repete o mesmo esteriótipo "homem" e "mulher" no mesmo ensaio?
3) Já discutiu condutas sobre assédio (em cena e fora dela) no seu grupo?
4) Existem ou já percebeu se existem protocolos de conduta e vestimenta para mulheres que seja diferente para homens? (to falando dos ensaios e apresentações, mas serve reparara se os da vida cotidiana se aplicam cá também). 
- Por que existem? Ex.: Qual é o problema, se é um problema, uma mulher não usar sutiã numa apresentação? E num ensaio? 
- Se isso lhe aprece óbvio, já se perguntou se óbvio para s/os demais? 
- As mulheres: elas se sentem a vontade para não usar sutiã se não quiserem?
5) Quantos grupos você conhecem que tem a proporção de 50/50% entre homens e mulheres? E quantos tem mais homens que mulheres? E quantos tem mais mulheres do que homens?
6) Quantos grupos você conhece só de mulheres? E quantos só de homens?
- Por que "existe" (se é que existe)  uma necessidade de haver grupos só de mulheres?


Um beijo, me liga, me escreve! Conversemos tomando uma cerveja, vinho, suco, água e chá. Ah, gente, bebe água! É vital!




Bilbiografia mencionada:

2005. Brook, P. A Porta Aberta. Rio de janeiro: Civilização Brasileira. 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Descobrindo o mês de Janeiro de 2019

Eu prometi que compartilharia aqui os workshops que fiz parte em janeiro de 2019 por estas terras portuguesas. Então aqui vai já no final de Fevereiro, o que foi este Janeiro!

Workshops de Impro SyFy com Isaac Simon
14/01/2019, das 20h às 23h no Centro Cultural de Moscavide. 
#improvfx #isaacsimon

O grupo ImprovFX aproveita a vinda de improvisadoras e improvisadores de outros países para realizar workshops com o grupo e, como os treinos abertos, também abrem (quando possível) estes workshops. Eis que eu me adentrei neste com minhas nerdices e coração geek a palpitar. 
Vamos lembrar aqui que esta é a minha maneira de escrever e que os nomes dos exercícios não importam porque eu nem sei se foi isso mesmo que foi dito, hehehe.

O Issac Simon é estadunidense e mora atualmente na Holanda. O workshop foi conduzido em inglês.

Exercício #1: Evolução

Há 7 estágios de evolução no exercício que seguem uma ordem: Ovo (andar no plano baixo agaxadas/os como ovos); Galinha (andar no plano médio/baixo como Galinhas); Dinossauros (Andar no plano médio/baixo como Dinossauros T-Rex); Humanas/os (Andar de pé); Mulheres e Homens de Negócios (De pé a resolver problemas ao celular/telemóvel, computador, etc.); Jedi (De pé com seu sabre de luz e a força); Semi-Deus/a (Ah... a plenitude). Todas/os começam como Ovos. E quando cruzam o olhar com alguém, jogam pedra, papel e tesoura. Quem ganha: "evolui", no caso para Galinha (seguindo a ordem de "evolução"). Você só pode jogar Pedra, Papel e Tesoura com alguém que está no seu mesmo nível de "evolução". A partir do nível da Galinha, quem perde o Pedra, Papel e Tesoura, "des-evolui", ou seja, volta um nível. Ou seja, se duas pessoas como Galinhas jogam Pedra, Papel e Tesoura, quem ganha "vira" Dinossauro e quem perde "volta" a ser Ovo, nenhuma das duas ficou como Galinha. O mesmo acontece em qualquer nível, sempre "voltando" ou "subindo" um nível na "escala evolutiva". Quando se atinge o nível Semi-Deus/a, pode se retirar do campo de jogo e observar.

Observações:
- Ótimo aquecimento
- Sou competitiva para cara...mba

Exercício #2: Gênero Cultural

Em roda, com uma vinheta que determina um ritmo para se iniciar o jogo, alguém delimita um gênero cultural ou estilo: Zumbi, Comédia Romântica, Apocalipse, Distopia, etc. Depois disso, como que se jogasse algo para o meio da roda, cada um que tem uma referência desse universo estipulado, a fala. Pode ser objetos, descrições de espaços, frases, o que seja. Até que se considera esgotado e passa-se para a vinheta e recomeça com novo gênero.
Ex.: Zumbi!
- Cérebros
- Sangue
- Vírus
- Andar armada/o
- Ruas destruídas
- Silêncio
- "Se me morderem, por favor, me mate!"

Observação:
- Bom jogo para trazer referências de grupo e atiçar o imaginário antes de improvisar.

Exercício #3: Pintar a Cena e Viver a Cena

Todas/os pintam a cena: descrevem algo no ambiente: de objetos a cheiros, temperaturas, etc. Tudo somático compondo o mesmo espaço. Se desloca para o espaço para "pintar" a imagem, mostrar onde ela se encontra. Depois duas pessoas entram e contracenam nesse ambiente.
Ex.:
- Uma lâmpada pendurada com a luz a falhar
- Uma janela quebrada que mal contém o vento frio que faz a lâmapda balançar
- Um rádio velho chiando nas prateleiras da parede de trás
- Baratas pelo chão e paredes, a maioria mortas
- Um sofá de dois lugares velho e destruído, com as molas aparentes, num tecido que já foi vermelho, no canto esquerdo abaixo das prateleiras.

Orientações para este workshop:
- Cenários de Distopia
- Terminar a cena sabendo quais as relações e o que fazem naquele espaço, o que é aquele espaço para as personagens. 

Exercício #4: Camadas da Cena

Cena de 4 pessoas. Primeira vez a cena é feita "realisticamente" a partir de uma ação que todas/os fazem. O diálogo deve ser sobre nada, absolutamente desinteressante. A segunda vez, faz a mesma cena, tenta-se manter o diálogo criado na primeira, porém há uma nova camada de intenção ou realidade. Ex: 4 pessoas datilografando num escritório falam sobre leite. Antes de se repetir, cada pesoa escolhe alguém para estar apaixanoda/o. Repete a cena e diálogos com essa intenção. Nova camada, repetir a cena como se tivessem acabo de descobrir que têm mãos. 

Exercício #5: Não pode Sair

Cenas de 2 pessoas. Sugestão inicial de distopia e situação. Não se pode sair de cena. Vamos descobrindo a realidade desta distopia, as regras que a governam, durante a cena. Ex.: Distopia: Não poder demonstrar emoções. Situação: Casal à porta de casa depois do primeiro encontro, em que ambas/os gostaram. A cena se desenvolve, uma pessoa está sempre a olhar para os lados (descobrimos que há vigilância), etc.

Exercício #6: Propagandas de Distopia

Sugestão inicial de algum problema real atual que será transformado em distopia. Seguem-se omprovisações de propogandas que mostram como se articula essa Distopia. 
Ex.: problema dos transportes públicos que estão sempre cheios. 
Propoganda 1: Agora todas as pessoas moram e andam juntas, se tudo está cheio, nada está! Viva a sociedade do Aglomerado!
Propaganda 2: Não tenha contato com ninguém, adquira seu holograma flex e se isole do contato físico! Deixe o HOlograma não sentir por você!

Exercício #7: Distopia Longform

É estabelecida uma Distopia inicial. Improvisação livre longform a partir da Distopia.


Foto: André Sobral. Self desfocado do grupo... Ou uma interferência Syfy



Foi interessantíssimo trabalhar o conceito de Distopia como base da cena. É um descobrir de regras de um Universo outro que tem muito haver com o nosso, mas que se articula aos poucos numa outra realidade. 

***

Workshop Stephen Thornton
26/01/2019, das 14h às 18h no Pólo Cultural das Gaivotas. 
#stimprov

Uma das coisas que eu adoro é conhecer alguém no dia a dia, em situações umas e poder ver essa/esse alguém como professor/a. Estamos a improvisar com o Stephen há alguns meses nos treinos abertos do ImprovFX. Já o conheço de alguma, e agora tenho 4 horas de sua acunha como professor. Camadas de nós mesmos!

O Stephen é estadunidense e atualmente mora em Lisboa. O Workshop foi conduzido em inglês, tendo uma improvisadora tradutora (Inês Lucas) conjuntamente para qualquer necessidade.

Anotações iniciais do que captei da proposta:

Objetivo: Trabalhar o desenvolver de cenas sem uma premissa pré-determinada

Quadro inicial apresentado:
1) Make active, positive choices (Faça escolhas ativas e positivas)
2) Support and enjoy the physical, verbal and emotional reality of the scene (Dê suporte à realidade física, verbal e emocional da cena)
3) Be right here, right now! (Esteja aqui, agora!)

Exercício #1: Nomes com troca

Andando pelo espaço, contato visual. Por quem passa, fala-se o própro nome e escuta o da outra pessoa. Depois de um tempo nesta dinâmica, começa-se a falar o nome de quem encontra e não o próprio. 

Exercício #2: Passar palmas

Inicialmente em roda. Passa-se a "bola" por palmas, para as pessoas ao lado e depois de um tempo a "bola" pode saltar para qualquer pessoa. É estabelecido um sinal para que, quando alguém que está com a "bola" o fizer, todas/os tenham que trocar de lugar.
Repete-se o exercício substituindo as palmas por estalos de dedos (como movimento).
Repete-se o exercício mais uma vez substituindo os estalos por acenos de cabeça.
Na última "repetição", é o olhar (sem aceno) que guia o passar da "bola".


Exercício #3: Siga seu espelho

Em roda. Cada pessoa, na sua vez, aponta para alguém no círculo. Esta, por conseguinte, aponta para outra, até que o ciclo se feche e todas/os tenham uma pessoa apontando para si e que também estejam a apontar para alguém. Assim se define quem é o espelho guia de quem: a pessoa para quem se aponta é a pessoa que você deve seguir os movimentos, como um espelho, procurando ser o mais preciso e simultânea/o possível.

Exercício #4: Banco em silêncio

Um banco (ou cadeiras poscionadas uma do lado da outra). Duas pessoas entram e se colocam em posição no banco. Sinal de luz (ascende), em silêncio, se deixam afetar pela presença da outra pessoa, percebe-se a outra pessoa. Sinal de luz (apaga). O grupo que assiste comenta o que viu e percebeu, suas interpretações e especulações. 

Observação:
- Perceber as diversas leituras e que nenhuma é correta ou errada.

Exercício #5: Banco + diálogo

Mesmo exercício do #4, mas agora, quando sentirem o momento, um diálogo previamente determinado é falado:
A: I love you. (Eu te amo.)
B: I love you too. (Eu te amo também.)
A: Really? (Sério?)
B: Yes, really. (Sim, sério.)

Observações:
- Diferentes perscepções de intencões e possíveis histórias (especulações) do público.


Comentários e anotações avulsas da oficina até então:

- Improvisation in the end of the day is discover. (Improvisação no final do dia é descobrir.)
- If the improviser is surprise, the audience will feel the surprise. (Se a/o improvisador/a é surpreendida/o, o publico vai sentir a surpresa.)
- You will know what you need to know when you need to know what you need to know. (Você vai saber o que precisa saber quando você precisar saber o que precisa saber.)

Exercício #6: Iniciações 3 e 4


Existem 7 tipos de Inciniações de cenas (traduzindo Sthephen)
1. Algo dito/escutado
2. Física (atividade ou movimento abstrato)
3. Emocional
4. Observação (você parece... Você me faz sentir...)
5. Opinião (Eu acredito que...)
6. Premissa exterior (vem de uma oferta cega)
7. Premissa interior (não vem de uma oferta, é uma oferta)



Cena de 2 pessoas. Começa com as 2 andando pelo espaço. Ao comando da/o professor/a: congelam. Blackout. Quando a luz ascende a cena começa a partir daí e da percepção da verdade do momento. Perceber quais são as verdades, o que se sabe. Então alguém fala "Eu sinto ____________" e tem que ser uma verdade e não premissa, uma tentativa de estabelecer e definir algo. Perceber como isso faz a/o outra/o se sentir e seguir a cena. Descobir então os elementos ao longo da cena (ou não).

Indicações de protocolos para, em side coach, se potencializar as relações:
- Cosntruir uma ideia de cada vez
- Andar/mover para sua próxima fala
- Contar/revelar um segredo

Comentários e Observações:
- A verdade primeiro antes da premissa
Dizer seus sentimentos: o que você sente no momento que você sente seus sentimentos.
A mágica do descobrir
Você não está aqui para contar/controlar uma história (a premissa faz isso)
- Quando você chega no ponto em que "eu realmente quero saber" é a hora que eu posso definir (labled). Mas você não precisa.
Você é o canal para a história. 
* Me lembrei da história do Yoshi Oida (Oida, Yoshi. "O Ator Invisível". São Paulo: Via Lettera, 2007.)

No teatro kabuqui, há um gesto que indica "olhar para a lua", quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: "Oh, ele fez um belo movimento!"Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico.
Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível. (Oida, 2007, p. 21)


Foto: Inês Lucas (via timer da câmera)

Foto: Inês Lucas


Quintas de Improviso- Sem Rede
31/01/2019, das 21h às 23h30 no AnexXo (Sintra) - Byfurcação Teatro. #semrede #byfurcação

O grupo Sem Rede inicia os trabalhos da Quinta de Improviso do ano. Em que às quinta-feiras à noite abrem as portas do AnexXo para ensaios abertos com participação de quem se disponibilizar a ir, ou apresentações de improviso.


Foto: Sandra Cruz

Foto: Sandra Cruz


Ensaios abertos, meu povo. Jams. Palco de experimentação de improviso. Cervejas pós encontros. Podcast. Blogs. Vamso nos ecnontrar e trocar. Viver essa improvisação qeu nos cerca e liga. Como há a Impro Festa em São Paulo. Façamos mais, encontremos mais.

Além da troca com demais imrpovisadoras/es e com outros públicos é um grande oportunidade de permitir seu grupo em outros contextos. O mês de janeiro foi um tanto assim para o Lilimprov (#lilimprov). Estivemos juntas, as três, nas 3 oficinas/encontros aqui mencionados e fomos juntas assistir a um espetáculo de Impro também. Uma experiência sem tamanho nos assistir com outras pessoas, ou contracenarmos juntas com olhares e conduções de outras epssoas. Que encontros com nós mesmas tivemos!

Encontremo-nos. Afinal, no final do dia, é sobre descobrir. 


Self Lilimprov por Luana Proença

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Improvisar fora da sua Língua Materna

Nesta semana me deparei com o texto de Gino Galotti: DOING IMPROV OUTSIDE OF YOUR MOTHER TONGUE.

Me chamou a atenção porque partilho do óbvio: as dificuldades e sensações conflitantes internas, de se improvisar em outra língua (como postei muito aqui sobre os cursos internacionais em inglês) e por também acreditar que o assunto vale uma discussão continuada. Vale a atenção, principalmente porque espero ver o Brasil (e agora também espero mais de Portugal) se inserir num circuito mais internacional de Impro, o que levará ao encontro com as diferentes línguas (e linguagens).

Lembro como fiquei comovida (até escrevo sobre isso na dissertação de Mestrado) quando meu professor Micah Philbrook em 2011, no Centro de Treinamento The Second City em Chicago, disse que nós nos juntaríamos nas últimas horas do curso para improvisar com outra turma. Que mesmo que não tívessemos feito os mesmos exercícios, conseguiríamos jogar juntas/os porque agora falámos uma mesma língua: a Impro. Me fez um sentido especial por ser uma não-nativa ali. E por mais sinceramente poético e verdaeiro que isso seja, eu ainda tinha que improvisar em inglês, e isso, colegas, é outra vida!

Nos treinos abertos do ImprovFX que participo semalmente, temos improvisado em inglês. Me proponho a participar de encontros e festivais de Impro... em inglês... 

E nesta semana, temos o espetáculo: IMPROV COMEDY - FEAUTING: FOUR MISFIT IMPROVISERS será nesta terça-deira, 12/02/2019 às 20h30 em A Carpintaria, próximo do Cais do Sodré em Lisboa. Nele, eu, André Sobral, Hugo Rosa e Stephen Thornton vamos nos apresentar pela primeira vez  (juntas/os) em inglês em Lisboa com jogos de formato curto. O Stephen é o único nativo em língua inglesa... Então, percebemos como o assunto está aí o tempo todo.

Então segue aqui a tradução do texto do Gino Galotti, com autorização dele, justamente porque ele pretende continuar a discutir e ouvir as pessoas à respeito da experiência de se improvisar fora da língua materna.


A tradução é do inglês para o português, por isso lembro que a maneira de escrita em que o gênero feminino é visível no coletivo é uma proposta minha e não do texto original necessariamente.


***



Fonte Imagem e Texto original: 

FAZENDO IMPRO FORA DA SUA LÍNGUA MATERNA

Gino Galotti



Impro é uma forma de arte que ganha terreno em mais países cada ano. Da uúltima que chequei, somente 13% das pessoas que mencionaram "improvisação" no Facebook (usando públicos de Facebook) vinham dos EUA. O próximo da lista estava o México com 10%, Brasul com 10% e Itália com 5%. É impressionante ver como a improvisação se espalha!

Eu tomei a decisão de aprender e atuar impro em inglês, como muitas/os outras/os. Mas há um assunto que tem me interessado: Como improvisar na minha terceira língua afeta minhas performances?

Eu não estou falando sobre o óbvio, como se sentir menos confortável com sotaques ou não partilhar das mesmas referências culturais. Eu quero falar de como improvisar em uma língua não-nativa afeta nossa maneira de jogar? Existe algum formato que é mais difícil por causa disso? Ou jogos mais fáceis? Nós conseguimos adaptar nossas aulas para um publico internacional? Eu tenho me perguntado alguma destas questões pelo meu teatro e decisdir também compartilhar com vocês.

Em uma realmente breve biografia (você pode ler a versão longa aqui): Eu sou Gino, um espanhol que começou a improvsar em Denmark. Na minha primeira aula, existiam 3 eslovenos, 2 falantes nativos de inglês e 10 outras/os de todos os lugares. Quando eu me graduei, um terço era esloveno e um terço eram falantes nativos. Nós conseguimos evitar esse grande abandono de não-nativos? Nós conseguimos lhes apoiar para termos um elenco mais diversificado?


Como improvisar fora da língua materna nos afeta?


Eu me pergunto isso o tempo todo.

Eu algumas vezes preciso de um segundo extra para responder quando estou jogando jogos de rítmo-rápido. Exemplos são os jogos de formato-curto que exigem respostas rápidas ou inciações como Pintar Cenas (Painting Scenes). Em relação ao que virá, o jogo realmente se destaca quando o ritmo aumenta até que as pessoas estejam praticamente falando uma por cima da outra. E eu não queria admitir que isso era uma questão, mas eu posso dizer que essa velocidade é um desafio para mim.

Eu não havia percebido que o inglês estava subsconsientemente afetando meu jogo até que eu entrei em um curso em Londres (onde eu era o único não-britânico), e joguei exercícios que eram focados em entrar no espaço mental "intuitivo" ("intuition" headspace). Alan Marriott nos explicou as três maneiras de reagir.

* Emocionalmente, seguindo nossas entranhas/instintos, na maior parte das vezes só fazendo sons e frunidos.
* Intelectualmente, quando nós processamos a informação e encontramos a resposta correta.
* Intuitivamente, quando nós sentimos estar no piloto automático, quando você não está consciente da resposta até deposis que você a disse.

Ele explicou quão poderoso é improvisar neste estado e propôs alguns exercícios. Em um deles, nós tínhamos que trazer objetos de uma caixa imaginária num ritmo tão rápido que você não podia preparar o que viria depois. A maioria das pessoas precisou de 40-60 coisas em alguns minutos para conseguir chegar num ponto de não pensar, mas eu achei isso impossível de alcançar em inglês. Aqueles 5 milisegundos - que eu não tinha ciência de que precisava - para chegar as palavras estava quebrando o exercício para mim. Quando eu mudei para espanhol... pareceu-me fácil!

O que me preocura são todas as formas que improvisar em inglês está afetando minha performance, sem que eu tenha consciência. Eu só posso trabalhar com algo se eu estou ciente disso!


O que se manter em mente quando se joga com falantes não-nativas/os. 


O que nós devemos manter em mente quando jogamos com (ou ensinamos) um time não-anglófono? Essa é uma das perguntas que me tenho me feito. Eu nào tenho uma lista extensa ainda, mas eu espero continuar adicionando notas de novas experiências como as suas.

Quanto mais físico, mais inclusiva é a improvisação. Eu talvez seja tendencioso por ter uma parceria com a Commedia dell'arte, mas a maioria das pessoas concorda que a fisicalidade é um campo honesto. Treinar cenas com limitação de fala ou com foco nos nossos movimentos irá empoderar as/os performers independentemente da sua perícia em inglês.

Esteja atenta/o a técnicas como a tag runs ou outras inciações rápidas. Eu adoro jogos de ritmo-rápido. Mas, eu tneho que admitir, eu gosto mais quando estou com um elenco apoiador que entende que a velcoidade não é o meu forte. Eu vou, obviamente, embarcar no jogo; mas eu fico ansioso quando eu sinto que eu tenho que ser quem vai guiar o grupo. 

O nível de conforto em se falar inglês tem implicações no estabelecer da plataforma da cena. Kadi, um/a amiga/o improvisador - que está a estudar o uso do inglês como língua franca - partilhou esse pensamento comigo. "Eu não tenho a visão de que aquelas/es de nós que usam o inglês (diariamente) como uma segunda língua estão quebrados ou com defeito e devem aspirar a algum tipo de padrão nativo. Mas eu acho que em alguns momentos deve-se também ter foco em dar apoio linguisticamente falando quando nós estamos sendo treinados a fazer cenas de impro. Eu vejo isso como parte e parcela de aprender a fazer cenas com literalmente qualquer um/a - nós todas/os temos diferentes forças como improvisadoras/es".


As forças que as/os falantes não-nativas/os trazem à mesa 


Eu acredito profundamente que existem muitas vantagens em se ter uma maior diversidade (em qualquer jeito possível) no elenco. 

A mais óbvia? Produz novas vozes, novos pontos de vistas ao cenário. Existe um novo mundo de possibilidades que é trazido à mesa. Nós teremos referências culturais diferenciadas, com todas as nuances que isso traz. E eu não estou apenas me referindo às nossas referências televisivas (por sorte, nós não podemos usar nenhuma em nosso teatro com um publico tão diversificado!).

Trazer o comunismo para esta cena? Será realçado por termos um/a parceira/o romena/o a quem a família realmente foi afetada pelos anos. Jogar como aquele garçon italiano? Você vai jogar no auge da sua inteligência com sua/seu amiga/o milanês/a ao seu lado.

Ter comando sobre várias línguas é uma regalia poderosa, especialmente quando seu teatro está localizado perto de um hostel. Eu já vi gargalhadas ruidosas quando um membro do elenco falhou em falar uma frase comum em dinamarquês; ou usando sua língua materna para realçar uma cena, dando uma jóia extra para um membro sortudo da plateia. Há inúmeros jogos de formato-curto onde nós podemos usar isso. Eu tenho uma memória adorável de uma amiga romena performando uma cena em espanhol somente com falas de telenovelas que ela aprendeu pela TV!

Use todos os pequenos erros como presentes. Se a/o sua/seu parceira/o de cena está confortável contigo, você pode honrar como seus problemas de pronúncias não-nativas podem inspirar uma cena. Durante um dos espetáculos principais do Festival CIIF, a/o única/o performer não-estadunidense pronunciou jail walking ao invés de jaywalking; e isso serviu de inspiração para a performance inteira!

Finalmente, eu não conseguiria contar todos os diferentes usos do inglês que nós fazemos só de sermos poliglotas. Eu relamente recomendo o inscrível TED talk que explica com a língua molda nosso jeito de pensar.



Pessoas trabalhando com o impacto da língua em impro.


Eu não tenho ouvido muitas pessoas estudando ou trabalhando sobre os desafios de se improvisar fora da nossa língua materna, foi por isso que eu decidi comerçar a conversar com a minha comunidade! Mas existem muitos cursos relacionados com as dificuldades mencionadas. Eu estou planejando contactar algumas/alguns professoras/es de improvisação para ouvi-las/os sobre suas experiências para que nós possamos compartilhar lições aprendidas!

No festival de Lyon, você pode encontrar vários cursos explorando a improvisação sem um língua compartilhada. Joe Bill está ensinando "Jogando com a Linguagens da Impro" ("Playing with the Languages of Improv"), explorando as diferentes formas de se comunicar em uma cena, algumas usando sua língua materna. Tim Orr está comandando um curso de "Cena Silenciosa" ("Silent Scene"), também.

Dada a situação única que nós temos no teatro, e estou ansioso por fazer mais pesquisas! Vamos fazer da improvisação ainda mais inclusiva! 


Você procura ajuda


Não existem publicidades neste blog. Eu não estou vendendo cursos. Você pode até vir assistir meus espetáculos. Se eu estou tomando tempo para escrever isso é porque eu acredito que nós possamos crescer juntas/os. E, para isso, eu realmente preciso de ajuda.

Inglês é a sua língua materna? Quais são suas experiência em improvisar em Inglês? Quais exercícios você acha particularmente desafiadores? Você ensina?

Sinta-se a vontade de comentar. Se você quiser uma conversa mais profunda no assunto ou se você quer compartilhar algo, meu email está mais que aberto: gino.galotti@gmail.com. Eu estou planejando em continuar a perguntar por aí e aprender sobre o assunto para que esta não seja a última postagem sobre improvisação com falantes não-nativas/os em inglês.

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Comentários finais (Luana Proença)

Vale ressaltar que este ano a décima edição do Diplomado Internacional de Improvisação Teatral (Colômbia) vai dar ênfase à fisicalidade, o que pode levantar discussões interessantes. Acredito que ainda dê tempo de se inscrever!

Outro ponto inclusivo em linguagem que penso à respeito da impro é o uso da Linguagem de Sinais (que, opa, é física!). É uma tradução simultânea do que é falado e nào compete em som com o que é dito. Pensem a respeito apra suas paresentações e festivais, de forma que isso seja, literalmente, incorporado, e nào apenas uma ação deslocada ao canto do palco.

Sigamos! Let's keep going!

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Um ano de Visando Impro - Para qual direção agora?

Em 31 de janeiro de 2018, abri o blog e publiquei a primeira postagem (e faz um mês exato desde a última postagem).

Há um ano... Não estava nos planos morar em Portugal naquela época, e a gente segue improvisando consciente (ou na tentativa de). Justamente hoje renovei meu visto de estudante por mais um ano, mas sabe-se lá o que virá.


Fonte: https://medium.com/@FacilitaMovel/10-exemplos-de-sms-de-anivers%C3%A1rio-para-conquistar-seus-clientes-55d36c9148dc

Janeiro voou. O desmoramento brasileiro político e ambiental e educacional e... A dor e a saudade... Paçoquinahs para consolar a ausência de Carnaval. O ritmo de estudos aqui foi intenso, com os trabalhos do doutorado para entregar, reeinício dos treinos com o ImprovFX e Lilimprov. além de mais dois workshops bem bacanas de Impro. vou deixar as descrições dos dois workshops para a próxima postagem e compartilhar aqui uma das minhas produções acadêmicas quanto à Impro. Escolho este caminho porque acredito, desde a criação deste projeto, na importância de se compartilhar reflexões sobre a Impro, ainda mais no âmbito de investigação e, em português.

Uma das disciplinas que estive inscrita foi a de Metodologias de Investigação em Teatro e Artes Performativas. Tive que sesenvolver como trabalho final um Ensaio Crítico sobre o Estado da Arte na minha Área de Pesquisa. Afinalando o tema de Impro em relação a Direção em Impro e os questionamentos que o tema me impele, eu compartilho meu exercício.

Relembro que um dos meus objetivos pessoais, inseridos neste projeto do blog com o financiamento do FAC/DF, é o de produzir material sobre impro em português, e isto é levado em consideração no meu ensiao crítico como fio condutor e também objetivo de pesquisa.


Obs: Se alguém quiser o texto em pdf (porque a formatação aqui no blog por vezes sai um pouco esquisita... uns espaçamentos nada haver que eu não consigo arrumar, etc.), só me pedir!

E nesta escrita solitária cá do blog... aceito com muita querência feedbacks marotos!


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DIRIGIR IMPRO
Luana Maftoum Proença

            A Impro, também conhecida como Improv ou Teatro de Improviso, é uma linguagem teatral na qual a improvisação é a base para a apresentação de ume espetáculo. Ou seja, o espetáculo é improvisado com a presença do publico enquanto a apresentação ocorre, de forma que o jogo teatral e a participação ativa de todas/os que estão presentes ficam expostos e, assim, são explorados para a criação conjunta de histórias, personagens, movimentos e cenas.
            Não há uma diferença exata entre o que é chamado Impro e a improvisação em si, já que “impro” é a abreviação da palavra improvisação. Porém, pode-se traçar uma linha de indicação entre o uso do improviso como ferramenta geral e como constituição de espetáculo, ou seja, uma linguagem ou gênero teatral. No Sumário de um dos mais conhecidos livros sobre improviso publicados em português, Improvisação para o Teatro de Viola Spolin, há uma unidade intitulada Teatro Formal e Teatro Improvisacional indicando a Impro como gênero. A improvisação é um campo, uma técnica e uma ferramenta utilizada pelo Teatro (e todas as outras áreas do conhecimento e vida cotidiana, a meu ver). A Impro, então, seria a articulação desta técnica enquanto espetáculo, como forma de arte não apenas no processo de criação em sala de ensaio, mas como a própria obra a ser apresentada. É uma divisão que existe na produção artística, que caracteriza tipo de espetáculo e confere especialidade a eventos como festivais que são dedicados à Impro. Há, entretanto, quem prefira não dividir o campo da improvisação entre técnica e forma artística, como Sandra Chacra em Natureza e Sentido da Improvisação Teatral que traz um subcapítulo intitulado Por que Improvisação Teatral e não Teatro Improvisado?. Nele argumenta: “Limitar a improvisação a um tipo de Teatro, seria restringi-la a uma espécie ou gênero. […] Partimos do princípio que a improvisação é elemento constituinte da vida teatral e que não pode ser descartada ou inserida em função de modelos dramáticos.” (Chacra, 2005, p.39). A partir desse ponto de vista, a palavra “impro” também é usada frequentemente na oralidade e literatura para designar qualquer prática de improvisação. Reconhecendo essas realidades do emprego do termo, definimos que quando nos referirmos aqui a Impro, estamos delimitando a Improvisação como espetáculo, o Teatro de Improviso, reconhecendo-o como forma de arte, que não se separa da improvisação, mas direciona seu uso específico para o fenômeno da apresentação.
            Percebemos a importância de se visualizar essa “diferença” sutil, por conta de uma série de questionamentos investigativos possíveis suscitados ao se pensar na improvisação como espetáculo: Como se articula um espetáculo de Impro? E a encenação: cenário, luz, figurino de improviso? Como se prepara a atriz e o ator para um espetáculo de Impro? Como se ensaia ou se treina? Qual a diferença entre treinar e ensaiar? Há diferença? Se aprende a improvisar? Se a improvisação é técnica e ferramenta, podem haver técnicas e ferramentas para se improvisar?
            E a partir de interpelações como essas se organiza toda uma outra perspetiva quanto à improvisação em si, o que determina a elaboração de uma bibliografia específica. O que se quer destacar é que podemos encontrar muitos estudos sobre a improvisação como ferramenta de criação em processos teatrais na história do Teatro. Ela está presente, por exemplo, nos escritos tanto do criar quanto do preparo de artistas nos apontamentos de Stanislavski, Meierhold, Artaud, Brecht, Grotóvski, Copeau, Lecoq, entre outras/os.

Considerando que todo ato teatral encerra, por si só, um elemento improvisacional, é de se supor que a improvisação esteja presente em toda a história do teatro. Fenomenologicamente, isto é certo, mas do ponto de vista histórico esta forma de expressão possui momentos de manifestação autônoma, passíveis de serem destacados da história geral do teatro. (Chacra, 2005, p.23).

            Um dos principais momentos históricos da arte teatral, de rápida referência à improvisação interferindo como cerne do ato de apresentação (como estrutura de espetáculo) é a Commedia Dell’Arte. A ela se dedicam inúmeros estudos específicos em todo o mundo, tanto pela curiosidade de se ter o improviso com extremo apuro técnico, quanto por sua própria importância histórica.
A existência de uma bibliográfica mundialmente vasta que fala da improvisação como ferramenta de criação para cena e treinamento de atrizes e atores, confunde-se um tanto com a bibliografia específica de Impro, devido justamente a Impro em si ser uma articulação técnica para uma forma de arte. “Confusão” acentuada por pontos de vistas teóricos, como o de Chacra, que não reconhecem o direcionamento específico da improvisação como espetáculo. Por sua vez, a partir de estudos e trabalhos artísticos como os do inglês Keith Johnstone, e das/os estadunidenses Viola Spolin, Del Close e Charna Halpern, o desenvolvimento de um estudo voltado a Impro, incentivou um outro olhar técnico para a improvisação num sentido global. O que se quer dizer é que os estudos específicos de Impro ampliaram o estudo técnico de improvisação no Teatro em geral não só numa perspetiva de usar o improviso, mas, e principalmente, em relação a como improvisar. Esta é, em si, a grande diferença e contribuição da Impro para o Teatro e seu uso da improvisação: não só se pensar os momentos em que o improviso pode contribuir num processo, ou como ele é potente e libertador da espontaneidade e do elemento da presença, mas pensar o como se fazê-lo, aprender a improvisar. Quantas/os atrizes/os não se veem numa arena segurando uma colher tendo um leão a correr em sua direção quando a/o professor/a pronuncia a sentença: “Improvise algo daí!” ou “É só improvisar!”. Esta é uma realidade fácil de se constatar ao se observar no Brasil e Portugal, por exemplo, os pouquíssimos cursos de formação de atrizes e atores que apresentem ao menos uma disciplina dedicada à improvisação e, que ainda assim, pense o como improvisar além do uso da ferramenta improviso.
Obviamente, em escritos dos mencionados grandes autores do Teatro pode-se encontrar indicações desse como improvisar, porém, é basicamente um trabalho de garimpo e filtro, pois os caminhos do como se relacionam mais a outros conceitos do que diretamente com a improvisação. Tomemos o exemplo do “Se Mágico” apresentado por Constantin Stanislavski em A Preparação do Ator nas palavras da personagem do diretor Tortsov diante de suas/seus alunas/os:

[…] o se atua como uma alavanca que nos ajuda a sair do mundo dos fatos, erguendo-nos ao reino da imaginação.
 […] quando usei a palavra se, reconheci francamente o fato de que lhes estava apenas propondo uma suposição. […] Vocês, por sua vez, não se obrigaram a aceitar a suposição como realidade, mas unicamente como suposição. (Stanislavski, 2012, p.76 e 77).

Stanislavski vai relacionar o “Se Mágico” ao uso do estímulo de uma situação hipotética, da criatividade, imaginação, da “vontade” da/o artista, da espontaneidade da ação, da “verdade cênica”. No “garimpar” do como improvisar, tendo a improvisação como o caminho do desenvolver da espontaneidade e criatividade em cena, podemos ler o “Se Mágico” como a proposta, a oferta, a sugestão que estabelece o jogo e a partir daí depará-la com os princípios de AceitaçãoXBloqueio ou o “Sim, e…” (aceitar e acrescentar) que são explorados na Impro neste como improvisar: a ideia que é trazida (ofertada, sugerida) é aceita, não há julgamentos ou aprovações, pois é dela que se desenvolverá e se estabelecerá o jogo. Como garantir que uma improvisação é coerente dentro do seu universo criado? Talvez esse princípio pareça óbvio, pois quando crianças isso nos seja natural no brincar, mas a atitude da/o adulta/o, e por assim, da/o artista é de avaliar se uma ideia sugerida é “digna”, é boa o suficiente para ser trabalhada, seja esta ideia vinda de si mesma/o ou de outra pessoa. Ao se treinar aceitar a “primeira ideia” não está a se treinar “Teatro” diretamente nos aspetos de personagem, texto, movimento de cena, estilização, etc., mas sim um comportamento ou um modo de pensar que permite improvisar. A integração do “Se Mágico” com o “Sim Mágico”. O aceitar é uma das primeiras questões a se aprender com Impro no como improvisar e, por mais óbvio que parece, não é (ou era) uma das lições populares em aulas de Teatro.
Já nos estudos de Lecoq e Copeau, por desenvolverem em suas escolas um programa que contemplava o ensino de improvisação e estabelecidos para si a ideia de “jogo cênico”, já podemos encontrar maiores apontamentos no como improvisar. Jacques Lecoq, por exemplo, vai começar seu trabalho de improvisação a partir do silêncio a fim de que suas atrizes e atores se entendam para além das palavras: “o grande tema-piloto, que domina as primeiras improvisações silenciosas, é A Espera. O principal motor da interpretação está nos olhares: olhar e ser olhado.” (LECOQ, 2010, p.62). Este “olhar e ser olhado” pode ser revisto nas teorias de Impro como a “escuta” ou “presença plena”, treinar perceber o que acontece e o que nos acontece. É a perceção da “oferta cega”, uma sugestão que não foi propositalmente feita para ser seguida, mas que está ali num movimento, num olhar, num estar e que é capitado e desenvolvido entre as/os presentes. Para tanto é preciso “escutar”, que tem haver com o manejo de ansiedade, o “esperar” que algo se manifeste. Lecoq também vai propor estruturas de improvisação, que mais que regras de jogos ou propostas de situação, são uma série de protocolos e ações possíveis que podem ser usadas em cena, numa escala de intensificação, a fim de guiar o trabalho de improviso. (Lecoq, 2010, p.66 e 67). Entretanto, mesmo que de grande valia, os apontamentos de Lecoq visam a ferramenta improviso para se atingir um grau e vigor de presença requerido por ele no palco e também como parte do trabalho da/o artista, vide que se encontram especificamente apenas 9 páginas dedicadas a improvisação em O Corpo Poético: Uma Pedagogia da Criação Teatral, uma obra de 237 páginas.
Jacques Copeau, ao se debruçar junto com Louis Jouvet nos estudos da Commedia Dell’Arte, já vai desenvolver um como improvisar num olhar que evoca o Teatro de Improviso, mas ainda perpetua na prática do ensaiar e criar para depois formatar uma obra “fechada”.

A improvisação não é apenas um exercício, um meio de atuar melhor, pensa Copeau, mas talvez se possa ressuscitar o gênero da comedia improvisada, com personagens e temas modernos. O ator tornar-se-ia quase autor. Entretanto, textos seriam trabalhados em termino de estudos, sobretudo os clássicos franceses, que "não oferecem pontos de fixação as afetações, aos fogos fátuos da habilidade". (Aslan, 1994, p.49).

Este percurso da improvisação nos sistemas de ensino e treinamento de grandes encenadoras/es da história do Teatro, assim como o aproveitar de conceitos, pode ser encontrado mais diretamente na obra já mencionada de Sandra Chacra Natureza e Sentido da Improvisação Teatral, em Improvisation in Drama de Anthony Frost e Ralph Yarrow, e também, com olhar atento para o tema em O Ator no Século XX de Odette Aslan.
A Impro como se conhece hoje, teve sua primeira grande onda de criação entre as décadas de  1950 e 1960 principalmente nos Estados Unidos (com Viola Spolin e seu filho Paul Skills) e Inglaterra (Keith Johnstone), se popularizando em outros países por volta da década de 1970. É possível se dizer que ao final dos anos 90 já estava inserida mundialmente, tanto difundida ou conhecida entre pequenos grupos artísticos. De forma que o material específico em Impro hoje já é bem rico principalmente em produções originais em inglês e suas traduções para outros idiomas como o Espanhol e o Alemão (que também produzem uma gama de materiais originais). Especificamente sobre Impro, sobre como improvisar, existem centenas de livros, blogs e por certo, dezenas de artigos acadêmicos sobre Impro no Teatro (pois a Impro, os princípios e técnicas de como improvisar, já são popularmente usados também para treinamentos no mundo dos Negócios, na Saúde e Terapias). Existem pelo mundo escolas especializadas em Impro, como o Loose Mouse no Canadá, O Centro de Treinamento Second City, o Upright Citizens Brigade (UCB), o iO e Groundlings nos Estados Unidos, só para citar as mais famosas.
Esta, porém, não é a realidade para os países de língua portuguesa. Não há escolas específicas, apenas workshops esporádicos ou um curso menor dentro de formação de longa duração de escolas de Teatro em geral. O material bibliográfico específico em Impro em português, é extremamente escasso, incluindo o material traduzido para o português. Temos algo como: 2 livros, 4 capítulos em Livros, 10 trabalhos acadêmicos de conclusão de curso, 14 artigos publicados, 12 publicações em Anais de Congressos de Artes Cênicas e 1 blog ativo.
Numa interseção entre Impro e práticas pedagógicas e sociais podem somar a estes números os trabalhos do brasileiro Augusto Boal, que também é muito citado na bibliografia mundial de Impro, e as traduções dos livros da estadunidense Viola Spolin. Os escritos e experimentações de Boal como o Teatro do Oprimido, a Dramaturgia Instantânea, o Teatro do Invisível e o Teatro Fórum, por exemplo, podem ser lidos como formatos de espetáculos de Improviso e recursos de jogos de treinamento, mas não se debruçam tanto no como improvisar, pois a visão do autor está mais vinculada na expressividade social e transformação do meio social usando o Teatro como ferramenta que, por sua vez, vai usar da improvisação como caminho para aprendizado e criação teatral para não-atores[1].
Spolin, por sua vez, tem um trabalho direta e indiretamente relacionado a Impro e seus quatro livros foram traduzidos no Brasil: O Fichário de Jogos Teatrais de Viola Spolin onde encontramos uma organização metódica de jogos para ensino de Teatro que usam a improvisação como base e orientações de aplicação dos exercícios; Jogos Teatrais na Sala de Aula que tem por perspetiva o uso de jogos teatrais no desenvolvimento de crianças e adolescentes, não necessariamente em Teatro, mas por meio do Teatro; O Jogo teatral no Livro do Diretor onde relaciona, como num manual de condução de exercícios e orientações, os jogos como caminhos de treinamento e criação de cena; e Improvisação para o Teatro no qual apresenta parte da teoria da Impro, ou seja, o como improvisar, jogos teatrais e como ler o sistema proposto, o próprio uso de jogos no ensino de Teatro e desenvolvimento da espontaneidade e criatividade, e ao final um glossário de termos relacionados ao livro e com isso, a Impro. Porém, a de se destacar, que Spolin se debruçou sobre a pedagogia teatral e esse material, assim como a maior parte de artigos, monografias, dissertações e teses derivados dele, vão falar da sala de aula e não necessariamente da forma de arte Impro. No Prefácio de autoria anônima da tradução brasileira de Improvisação para o Teatro podemos perceber como as interceções entre seu olhar pedagógico são tocadas pela ideia de espetáculos de Improviso:

Embora o material para publicação tenha sido reunido há muitos anos, sua forma final só foi atingida depois que a autora observou como a improvisação funciona profissionalmente no Second City em Chicago, o teatro improvisacional de seu filho, o diretor Paul Sills. O desenvolvimento deste sistema para o uso profissional trouxe novas descobertas e a introdução de muitos exercícios recém-inventados em suas oficinas de trabalho em Chicago. O manuscrito foi submetido a uma revisão total para incluir o material novo e para apresentar mais claramente o uso do sistema por profissionais, bem como pelo teatro amador e infantil. (Spolin, 2001, XXVIII).

Assim, em suas publicações conseguimos encontrar pontualmente e especificamente o olhar do como improvisar, que são de suma e grande validade para a Impro, no que se diz respeito ao espetáculo de Improviso em si, encontramos mais pinceladas referentes à forma de arte. Isso está explícito no próprio título que coloca a Improvisação à serviço do Teatro. Também pode ser percebido ao se ler a própria conceituação de improvisação dada pela autora:

IMPROVISAÇÃO – Jogar um jogo; predispor-se a solucionar um problema um qualquer preconceito quanto à maneira de solucioná-lo; permitir que tudo no ambiente (animado ou inanimado) trabalhe para você na solução do problema; não é a cena, é o caminho para a cena; uma função predominante do intuitivo; entrar no jogo traz para pessoas de qualquer tipo a oportunidade de aprender teatro; é “tocar de ouvido”; é processo, em oposição a resultado; nada de invenção ou “originalidade” ou “idealização”; uma forma, quando entendida, possível para qualquer grupo de qualquer idade; colocar um objeto em movimento entre os jogadores como um jogo; solução de problemas em conjunto; a habilidade para permitir que o problema de atuação emerja da cena; um momento nas vidas das pessoas sem que seja necessário um enredo ou estória para a comunicação; uma forma de arte; transformação; produz detalhes e relações como um todo orgânico; processo vivo. (Spolin, 2001, p. 341 – grifos nossos).

A produção de Impro, em geral, já se distancia do olhar de improviso como “resolução e problemas”, chegando a traçar escritos que valorizam o “se colocar em problema” na improvisação. Vale destacar que a publicação da primeira edição em inglês de Improvisation for the Theater (Improvisação para o Teatro) data de 1963 e a Impro já desenvolveu novos formatos dentro de si mesma. O formato curto (short-form) é o mais conhecido entre o publico em geral por conta de sua duração “curta” e do vínculo com a comédia que gera vídeos “virais” nas plataformas de digitais. As estruturas competitivas são as mais desenvolvidas neste formato como o Teatro-Esporte, o Match Improvisation, entre outros, em que as/os improvisadoras/es partem de sugestões do publico para improvisar cenas dentro de jogos que tem metas a serem alcanças. O formato longo (long-form) já tem a tendência de desenvolver histórias e personagens improvisadas a partir de uma sugestão do publico.

A maioria do improv formato longo dura ao menos dez minutos e consiste em um número de cenas curtas editadas pelas/os performers[2] no palco, às vezes por um chefe de palco ou outra fonte de fora. As partes de um formato longo devem estar relacionadas de alguma maneira. […] Improvisação Formato curto dura geralmente menos de dez minutos e tende a não conter qualquer edição interna. (Libera, 2004, p. 121 – tradução nossa[3]).

A estrutura (também chamada de formato[4]) mais famosa é The Harold, desenvolvida por Del Close e Charna Halpern no Teatro e escola de improviso iO, em Chicago e define três ciclos de cenas “aleatórias” que encontram conexão no último ciclo. A esta estrutura se dedicam livros e cursos exclusivos em Impro. Mesmo assim, os formatos curto ou longo variam em si de espetáculo a espetáculo, oferecendo estruturas diferentes, das mais simples como definir-se como formato curto ou longo, às complexas como The Harold.
Assim, dentro do que já se produziu bibliograficamente em Impro tem-se documentações históricas, registros das escolas e personalidades famosas que passaram por elas, biografias, manuais de como improvisar, como montar e treinar seu grupo, o que se treinar, e conjunto de exercícios e jogos para tanto. Giram em torno das ferramentas para se construir as cenas improvisadas: narrativa, personagens, relações, edições de cena, etc. É a partir daí que se desenvolvem outros pontos para aprofundamento de pesquisa, questões que ainda não foram olhadas com maior atenção ou dedicação, como o caso da Direção em Impro. Como se dirigi um espetáculo de Improviso? Dirigir improvisação não é por si contraditório? Se dirige o espetáculo, o grupo ou a cena? As/os improvisadoras/es enquanto atuam também se dirigem e dirigem o espetáculo? Desse material que existe de Impro, o que se aproveita para a Direção? Qual a diferença em Impro de se dirigir e se treinar um grupo? Onde isso se confunde e se separa? Será que se separa? E a partir daí, também se derivam questionamentos tais como: Qual a diferença de se dirigir Impro e qualquer outro espetáculo teatral? Impro é um processo colaborativo? Uma criação coletiva? E a Dança, com seu histórico de improvisação e contato-improvisação: como pode contribuir em metodologias e técnicas de Direção para a Impro?
Na bibliografia existente específica de Impro, encontra-se apenas o livro Directing Improv: Show the Way by Getting Out of the Way de Asaf Romen, publicado em 2017, além do caso dos livros de Viola Spolin O Jogo Teatral no Livro do Diretor e Improvisação para o Teatro que em inglês recebe o subtítulo: A Handbook of Teaching and Directing Techniques (Um Manual de Técnicas de Ensino e Direção – tradução nossa). Como Spolin mesma aponta em seu Prefácio, o seu trabalho não visava o Teatro de Improviso, embora tenha sido muito utilizado e contribui para o desenvolvimento do mesmo. (Spolin, 2013, p.15). Há também menções sobre o tema no formato de comentários, dicas ou um ou outro capítulo de livros de Impro. Não foram encontrados artigos científicos ou trabalho de conclusão de curso acadêmico dedicados a questão.
Um dos motivos para a ausência de material talvez seja porque, assim como acontece na realidade teatral em geral, o aprender a dirigir esteja vinculado com o aprender da/o performer na feitura da própria linguagem com o percurso artístico. “Existe pouco treinamento acessível que lida com como dirigir Impro. Ao ensinar o assunto, eu descobri que grande parte das pessoas aprenderam a arte da Direção e Impro simultaneamente. Isso acrescenta uma série de níveis de dificuldade a uma tarefa já repleta de ansiedade.”[5] (Romen, 2017 – tradução nossa[6]).
Outro ponto que “confunde” o material, é a proximidade da função de diretor/a e treinador/a em Impro, ou ainda com a função de professor/a. Isso é possível de perceber no prefácio escrito por Jonathan Pitts no livro de Romen:

De fato, muitas vezes, a direção e as/os diretoras/es são usualmente incompreendidas como uma arte, função ou um papel nos elencos, espetáculos e estruturas de impro. […] Asaf Romen, um artista de impro formato longo, criou um excelente livro sobre dirigir e treinar impro. […] para dirigir ou treinar tanto um espetáculo quanto um elenco. […]. Asaf claramente define muitos dos problemas e situações únicas para se dirigir e treinar impro. […] Por muitas vezes diretoras/es estão em um papel isolado em relação ao elenco, diretoras/es e treinadoras/es não tem frequentemente uma chance de conversar e aprender umas/uns com as/os outras/os; […] Por focar em direção e treinamento, o novo maravilhoso livro de Asaf preenche um vazio no catálogo de livros publicados de impro.[7] (Pitts in Romen, 2017 – tradução e grifos nossos).

            A associação sempre conjunta de Direção com treinamento no texto de Pitts é uma resultante da conexão entre os dois trabalhos, que ao mesmo tempo, por serem citados juntos sem um suprimir o outro, também copele que exista uma diferença entre ambos. Romen dedica inclusive um breve espaço de seu livro para “diferenciar” o dirigir, treinar e ensinar, e ao mesmo tempo, já faz por si algum “garimpo” quanto a comentários sobre Direção em Impro ao disponibilizar depoimentos (e não citações de obras) de outros profissionais desta especificidade. Kevin Mullaney aparece, por exemplo, comentando que: “Como diretor, a última coisa que eu quero fazer é ensinar alguém. Isso não é o que eu quero fazer quando estou dirigindo. Eu estou lá para ajudar a dar forma ao espetáculo. Se elas/es não estão prontas/os para fazer este espetáculo, então talvez elas/es não deveriam fazer parte desse processo.”[8] (Mullaney in Romen, 2017 – tradução nossa).
Spolin vai usar no Jogo Teatral no Livro do Diretor o binômio diretor/instrutor, contribuindo, por sua grande influência na Impro, para essa “confusão” de funções (que não deixa de, no seu confundir, ser fecunda e funcional). Pode-se dizer que este livro, como este mesmo é apresentado, é uma organização dos jogos teatrais e como instrui-los pela perspetiva da/o diretor/a. A metodologia de se dirigir por meio de jogos indica o tipo de Direção que Spolin descobriu e se dedicou: “Descobri que durante o jogo eu poderia continuar a dar instruções sem interromper o que os atores estavam fazendo. Minha direção começou então a constituir de instruções para o foco do jogo.” (Spolin, 2013, p.15). Também em Improvisação para o Teatro, Spolin vai dedicar duas páginas ao trabalho da Direção em geral, e um único parágrafo à relação direta a Impro:

Para o teatro improvisacional, a sua parte na ação teatral é ver e selecionar a cena ou estória na medida em que emerge do trabalho dos atores (enquanto solucionam um problema). O diretor deve sempre ver o processo em movimento (ou colocá-los em movimento quando os atores se sentirem perdidos), a partir do qual uma cena pode se desenvolver. (Spolin, 2001, p.285).

Em Long-Form Improv de Ben Hauck, há um capítulo dedicado a Direção juntamente com ensino de Impro formato longo no qual Hauck vê diferença ao mesmo tempo que não separa as funções: “Para mim, existe uma grande justaposição entre ensinar impro formato longo e dirigir impro formato longo. Como professor, eu estou dirigindo, e como diretor, geralmente estou ensinando.” (Hauck, 2012, p.239).
Ao “garimpar” em outras obras de Impro, entre os capítulos e passagens sobre Direção podemos encontrar, afim de exemplificar como o conteúdo aparece e é abordado: um pouco mais de uma página em Long-Form Improvisação & The Art of Zen: a Manual for Advanced Performers de Jason Chin; em Comedy Improvisation: Exercices & Techniques for Young Actors de Delton t. Horn, temos um subcapítulo para “liderança”; na obra de Johnstone Impro for Storytellers pode-se aproveitar os apontamentos do capítulo sobre feedbacks e um pouco mais especificamente a estrutura Gorilla Theatre que se baseia numa competição de Direção em Impro. Em The Improviser’s Way: A Longform Workbook de Katy Schutte, existem três parágrafos sobre Direção que falam mais da diferença quanto a função de treinador/a:

Enquanto eu estava dirigindo, eu trouxe o professor de formato longo Ryan Millar e outras/os para nos treinar durante os ensaios. O espetáculo tinha a minha visão, mas haviam habilidade que nós precisávamos trabalhar. […] Minha experiência como treinadora é a de que há um grupo ou elenco que traz alguém para elevar seu jogo. O grupo já decidiu o que quer. (Schuttle, 2017, p. 59 – tradução nossa).

            Nos casos de obras como Improvise: Scene from the Inside Out de Mick Napier, em que não há uma sessão destinada a Direção, mas pelo texto, mesmo que direcionado à/ao improvisador/a em cena, é possível selecionar indicações para se dirigir Impro e diferenciar a Direção do ensino ou treinamento:

Nós queremos ver o seu poder, não seu medo. Ninguém tem tempo para seu medo. Quando eu dirijo, presumo competência, não inabilidade. Isto é tudo que um/a diretor/a quer de um/a improvisador/a neste processo. Pegar as escolhas poderosas que ele ou ela criaram, e utilizá-las no espetáculo. Se eu, como diretor, tiver que constantemente dar tudo mastigado e sugerir e mimar a/o atriz/ator em relação a suas ideias, falas, e personagens então existe noventa por centro de chance de a pessoa estar a vir, já de começo, de um imenso lugar de insegurança. Está bem aí o problema, não na ideia, na personagem ou em qualquer coisa. Quanto mais você aborda a/o diretor/a ou outras/os atrizes/atores de uma maneira carente, mais você se alienará quanto ao poder da/o diretor/a e de si própria/o. Quando eu ensino, eu espero insegurança; quando eu dirijo, eu espero o oposto. […] Quando eu ensino, eu tenho espaço para escolhas inseguras; quando eu dirijo eu não tenho. Uma vez que você está proficiente neste comportamento, você terá o direito mais que bem-vindo de discutir sua cena comigo ou outra/o atriz/ator. A melhor coisa que você pode me dizer em críticas é, “Eu farei uma outra escolha, e vamos ver se funciona.”  (Napier, 2004, p.92-93 – tradução nossa).

            Percebe-se que há um pensamento quanto a Direção em Impro, que talvez na aliança com o treino e o ensino, acaba por ser pouco explorada na bibliografia, mesmo que se veja diferença entre as funções.
Outra questão que se pode levantar para a investigação ao retornar ao prefácio de Pills no livro de Romen é a existência em Impro de “áreas” ou “tipos” de Direção: de espetáculo ou de elenco, sendo que a primeira se refere a Direção de obras isoladas de Impro enquanto a segunda define um trabalho contínuo junto a um grupo de improvisadoras/es (que em Impro também são frequentemente chamados de times ou trupes). Uma classificação de trabalho que é mencionada, mas não explorada no livro. Para entendimento do que se desenvolve na obra, podemos verificar que Romen organiza-o em 12 capítulos que: 1) abordam sobre o que é, em sua perspetiva, o trabalho da/o diretor/a de Impro; 2) demonstram o trabalho em si; 3) discutem a questão dos feedbacks e desafios (que em Impro é algo a se avaliar com particularidade, já que o espetáculo não será “repetido”, então não é possível necessariamente “melhorar” ou mudar uma intenção, marca ou movimento, pois estes já não existem mais numa próxima apresentação); 4) orientam a formação de um elenco; 5) indicam como estruturar ensaios e oficinas; 6) abordam a técnica do sidecoaching; 7) designam caminhos para a criação de estruturas de espetáculos; 8) pensam a comunicação da Direção com a parte técnica e música (é muito natural a Impro dialogar cenicamente com uma musicista ou músico em cena. A Música tem por si muitos estudos quanto a improvisação na sua área); 9) exploram o desempenhar o papel de diretor/a e improvisador/a; 10) lidam com questões que podem aparecer em grupos (o que está relacionado com o trabalho de Direção em geral, mas que Romen usa exemplos específicos de Impro – ou da intensidade que aparecem na Impro – como o “roubar” a cena de alguém, não dar espaço à/ao outra/o parceira/o de cena, etc.); 11) trabalham a perspetiva de grupos mistos (a fusão de diferentes times); 12) desenvolvem as questões próprias do trabalho com crianças. Finaliza o livro ainda com a descrição de alguns exercícios, e a partilha histórias conhecidas ou vividas por ele próprio.
             Definitivamente, esta obra literária é um “pontapé” inicial ao se olhar a Direção de Impro com maior atenção. E justamente, por ser pioneira, abre o campo para outras inquietações, como se pensar qual é a real diferença entre se dirigir Impro e outras linguagens teatrais. Romen, como dito anteriormente, transcreve alguns depoimentos que apontam questões da Impro com a Direção, mas que sem dificuldade poderiam ser transpostas para qualquer outro processo teatral. Por exemplo, quando Mick Napier aborda o se tornar diretor/a, ele estabelece uma equivalência entre quem faz improviso (improvisadora/es) ou Teatro “em geral” (atrizes/atores):

A maior cilada, na minha opinião, é a crença de que a habilidade para ser um/a improvisador/a ou atriz/ator é suficiente para se dominar o ser diretor/a. É uma coisa totalmente diferente. Eu desejaria que toda/o futura/o diretor/a fosse um/a diretor/a assistente, ou ao menos assistisse e estudasse outras/os diretoras/es, antes delas/es decidissem fazer isso.[9] (Napier in Romen, 2017 – tradução nossa).

            Na linha desta comparação, tomemos o caminho contrário e outro ponto na análise do trabalho da Direção teatral em “geral”. A partir dos escritos da diretora estadunidense Anne Bogart em seu livro A Director Prepares: Seven Essays on Art and Theatre podemos falar do papel de observador/a ao dirigir: “Observar é perturbar. ‘Observar’ não é um verbo passivo. Como diretora eu tive que aprender que a qualidade da minha observação e atenção pode determinar o resultado do processo.”[10] (Bogart, 2005 – tradução nossa). Enquanto também se pode ler por este mesmo filtro o depoimento do diretor e improvisador Michael Gellman: “Se você negar sua inteligência ou negar sua responsabilidade como um/a observador/a apaixonada, então eu acredito que você realmente dececionou seu elenco. Elas/es estão contando com você para dar feedback e que você possa apoiá-las/os.”[11] (Gellman in Romen, 2017 – tradução nossa).
            E na sequência de questionamentos, em que a Direção também se coloca nos princípios da improvisação, com a escuta ou presença plena, numa qualidade de atenção, assim como se dispõe as atrizes/atores e, no caso, improvisadoras/es, levanta-se a investigação do binário da função diretora/improvisadora de cena. Cláudio Amado, no capítulo Atenção em seu livro Os princípios da improvisação: 40 jogos para aprender e improvisar lança uma premissa que é muito difundida na Impro: “O improvisador não é apenas ator. Quando improvisa em cena, ele é também escritor, pois está criando a história e os diálogos. É também um diretor, pois está criando as marcações e os códigos cênicos. (Amado, 2016). Então, como se estabelecem os papéis? Há uma hierarquia de decisões? Um limite? Como funciona esta relação e paradoxo de se ter um/a diretor/a o mesmo tempo que a peça em si, como obra, é improvisada? Podemos pensar a Impro como processo colaborativo ou criações coletivas?
            O que se pode dizer até aqui, de acordo com o que se percebe do material vasto de Impro que se tem em outras línguas, é que a Direção de Impro é um assunto que permeia o universo da Impro, mas que não se tem um olhar dedicado às várias questões que este assunto podem suscitar, mesmo que a prática da Direção em Impro exista em intensa e constante atividade. Isso, como apontado, deve-se ao fato de que na produção artística da linguagem, a Direção foi/é aprendida no fazer e desenvolver da forma artística, no próprio aprendizado das/os improvisadoras/es. E justamente, por se ter tantas diretoras e diretores a trabalhar e tão pouco desta experiência compartilhada pontualmente quanto a Direção em si, é que se abre todo um novo espaço no âmbito acadêmico científico e também da bibliografia da área para se explorar e desenvolver mais este assunto.
            Possibilidades para trilhar este caminho se debruçam em compartilhamento de experiências por entrevistas; nos estudos de genética teatral em Impro em continuidade de grupos e/ou trabalhos isolados; na análise crítica da correspondência de experiências cênicas da Dança (que possuiu o seu histórico de Direção e criação em improvisação); pesquisas de caso; ou ainda em trabalhos de Prática como Investigação em que se possa criar um espetáculo de Impro que abra a Direção, o que é dirigir em si no próprio ato da apresentação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Amado, Cláudio. (2016) Os princípios da improvisação: 40 jogos para aprender e improvisar. Rio de Janeiro: Amazon. Kindle Edition.

Aslan, Odette. (1994) O Ator no século XX. São Paulo: Perspectiva.

Bogart, Anne. (2005) A Director Prepares: Seven Essays on Art and Theatre. Londres e Nova Iorque: Routledge e Taylor & Francis e-Library. Kindle Edition.

Chacra, Sandra. (2005) Natureza e Sentido da Improvisação Teatral. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva.

Hauck, Bem. (2012) Long-Form Improv. Nova Iorque: Allworth Press.

Lecoq, Jacques. (2010) O Corpo Poético: Uma Pedagogia da Criação Teatral. São Paulo: SENAC.

Libera, Anne (org.). (2004) The Second City: Almanac of Improvisation. Evanston: Northwestern University Press.

Napier, Mick. (2004) Improvise: Scene From the Inside Out. Portsmouth: Heinemann.

Spolin, Viola. (2013) O Jogo teatral no Livro do Diretor. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva.
                        (2001) Improvisação para o Teatro. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva.

Stanislavski, Constantin. (2012) A Preparação do Ator. 21ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Schutte, Katy. (2017) The Improviser’s Way: A Longform Workbook. Londres: Nick Hern Books.

Romen, Asaf. (2017) Directing Impro: Show the Way by Getting Out of the Way. Nova Iorque: YESand Publishing. Kindle Edition.




[1] Boal relaciona a termologia “ator” a aquelas/es que tem o Teatro como profissão e “não-ator” a qualquer pessoa que esteja a desempenhar a função de ator/atriz numa prática cênica.
[2] Na citação de Libera, originalmente em inglês, encontramos o uso da palavra performer para designar a/o artista que executa a performance teatral.
[3] Em traduções nossas do inglês para o português disponibilizadas aqui, iremos manter a opção por uma grafia que traz a visibilidade do sujeito feminino junto ao masculino no decorrer de todo o texto. Obviamente, em respeito ao texto original a ser traduzido, isso só ocorrerá quando a/o autor/a não especificar o gênero do sujeito.
[4] Preferimos aqui o uso da palavra estrutura, pois em Impro a palavra formato também é usada para designar categoria de espetáculos em Impro em relação a sua duração: formato curto ou longo. Ressalta-se ainda que estrutura aqui é ligada a ideia de esqueleto, o conjunto de acordos para uma apresentação, não confundir o uso da palavra estrutura aqui com a definição de termo em Improvisação para o Teatro de Viola Spolin em que estrutura significa: “O Onde, Quem e o Quê; o campo sobre o qual o jogo tem lugar.” (Spolin, 2001, p. 339). Esta definição de Spolin tem haver com o estruturar, traçar os elementos edificantes de uma cena improvisada dentro de um jogo teatral.
[5] “There is little accessible training that deals specifically with how to direct improv. Int the teaching I have done on the subject, I have found that too many people learn the art of directing and improv simultaneously. This adds several levels of difficulty to a task already fraught with anxiety.” (ASAF, 2017).
[6] No caso de citações com tradução nossa de e-books, optamos por transcrever o texto original nas notas de rodapé para que o trecho possa ser facilmente encontrado na obra digital, já que não se é possível determinar a página da citação deste tipo de publicação.
[7] “In fact, often times, directing and directors are often misunderstood as an art, function and role within improv’s ensembles, shows and structures. […] Asaf Ronen, a longform improv artist, has created an excellent book on improv directing and coaching. […] direct or coach either a show or an ensemble […]. Asaf has clearly defined many problems and situations unique to directing and coaching improv. […] Too often directors are in a isolated role in relationship to the ensemble, directors and coaches don’t often have a chance to talk and learn from each other; […] By focusing on directing and coaching, Asaf’s wonderful new book fills a void in the improv canon of published books.” (Pitts in Romen, 2017).
[8]As a director, the last thing I want to do is teach someone. That’s not what I am there for when I’m directing. I’m there to help them shape a show. If they’re not ready to make that show, then maybe they shouldn’t be part of that process.” (Mullaney in Romen, 2017).
[9]The biggest pitfall in my opinion is the belief that the skill for being an improviser or an actor is enough to manage being a director. It’s a whole different thing. I wish every would-be director would be an assistant director, or at least watch and study other directors, before they decided to take it on.” (Napier in Romen, 2017).
[10]To observe is to disturb. ‘To observe’ is not a passive verb. As a director I have learned that the quality of my observation and attention can determine the outcome of a process.” (Bogart, 2005).
[11] If you negate your intelligence or you negate your responsibility as the passionate observer, then I think you’ve really let your cast down. They’re counting on you to give the feedback and that can be supportive. You don’t have to be an asshole. You don’t have to be an autocrat. You don’t have to be a cretin about it. You have to be honest; you have to be fair, while at the same time encouraging. Sometimes, you give them a little sugar with the slap or whatever.” (Gellman in Romen, 2017).